Troquei o modelo caro pelo barato em duas rotinas. As duas reprovaram.
A conta parece óbvia. O modelo pequeno custa uma fração do grande. Se ele dá conta, troca e pronto.
Eu testei isso em sistemas meus, com a mesma entrada nos dois modelos e uma régua escrita antes. Em duas rotinas, o barato reprovou. Em uma delas, nem economizou.
Este texto conta o que medi e onde o modelo barato de fato encaixa.
O ponto de partida: ninguém tinha medido nada
Eu opero minhas empresas com um sistema de agentes de IA. Em quatro semanas, ele rodou 88 subagentes. Nenhum em Haiku, o modelo pequeno da Anthropic. E nenhuma rotina declarava qual modelo queria usar.
Ou seja: tudo rodava no padrão, sem decisão. Eu aprovei trocar, mas com uma condição: só se comprovadamente melhorar. “Parece bom” não conta.
Teste 1: o resumo da manhã
Toda manhã o sistema me entrega um resumo curto do que importa no dia. Rodei o mesmo resumo, com os mesmos dados, no modelo grande (Opus) e no pequeno (Haiku).
O custo: US$ 0,16 no pequeno contra US$ 0,84 no grande. Cinco vezes menos.
Agora o resto da conta. O pequeno:
- errou a atribuição de um número;
- errou uma data;
- estourou o limite de cinco linhas;
- deixou a seção “Hoje” vazia;
- ignorou uma regra de priorização.
Reprovado. Um resumo com regras cheias de nuance não é tarefa mecânica. E a perda de qualidade apareceu justamente nas regras que eu uso para decidir o que fazer no dia. Um resumo barato com a data errada é pior que nenhum.
Teste 2: a rotina noturna, onde o barato saiu mais caro
Toda noite o sistema coleta números e executa uma fila de tarefas sem ninguém esperando. Parecia o lugar perfeito para o modelo mais barato do meio, o Sonnet.
Reprovou duas vezes.
Primeiro, na qualidade. Ele omitiu do relatório uma proposta que continuava aberta. Só listou as novas. Quem lê o relatório acha que a pendência sumiu.
Segundo, no custo, e aqui está o que mais me surpreendeu. Medi somando o consumo real registrado nas conversas do sistema:
| Saída | Escrita de cache | Leitura de cache | |
|---|---|---|---|
| Sonnet, sozinho | 41,5 mil | 173 mil | 12,25 milhões |
| Opus, no agente principal | 10,4 mil | 92 mil | 1,61 milhão |
| Opus, somando 2 subagentes Sonnet | 57,4 mil | 329 mil | 7,97 milhões |
Cache, em linguagem simples, é o contexto que o modelo guarda para não reler tudo do zero. Mas cada passo ainda lê esse contexto de novo. Um modelo que dá mais passos, reabrindo o contexto a cada um, lê mais. O barato, sozinho, em 95 mensagens, leu mais cache do que o caro delegando para ajudantes.
Preço por token menor não significa conta menor. Quem define a conta é quantas vezes o contexto é relido.
O mesmo erro, de outro jeito
Antes desses testes, eu tinha cometido o erro na forma mais pura. Eu uso um classificador pequeno, que roda numa API à parte, para decidir coisas pontuais: para onde vai um pedido, se algo passou ou não. No começo, eu chamava esse classificador como ferramenta, no meio da conversa com o modelo grande.
Medi em 22 de setembro de 2026. Cada chamada obrigava o modelo grande a reler o contexto inteiro só para ler uma resposta de uma linha. A mediana era de 150 mil tokens relidos por chamada. Saía cerca de 20 vezes mais caro do que deixar o modelo grande decidir sozinho.
O classificador não era o problema. O lugar dele era.
Onde o modelo barato encaixa de verdade
Hoje o classificador pequeno entra fora da conversa. Roda antes do modelo grande: lê o pedido, escolhe a rota e entrega pronto. Roda em rotinas automáticas sem ninguém esperando. E, quando a tarefa é julgar uma lista grande, ele julga a lista inteira numa chamada só, em vez de item por item.
Um exemplo medido: mapear um site de 147 páginas. O classificador fez em 18 segundos, por US$ 0,024. Contra o modelo grande, na mesma tarefa, foi 77 vezes mais barato e 3,9 vezes mais rápido. Deu a mesma decisão em 73% das páginas.
Leia esse último número com cuidado. Em 27% das páginas, a decisão foi diferente. Funciona porque a decisão final é tomada em código, com pergunta objetiva. Quando fiz perguntas abertas (“qual ação tomar?”), o classificador respondeu “otimizar” para quase tudo: 141 das 147 páginas. Pergunta aberta não discrimina. Pergunta objetiva, sim. Também notei falso positivo em “conteúdo desatualizado”: um post de cinco meses era marcado como velho. Por isso um sinal do código confere antes de agir.
O padrão que sobrou:
- Lote: lista grande, uma chamada, nunca item por item.
- Rotina sem ninguém esperando: o tempo de resposta não importa, o custo sim.
- Classificação e roteamento: escolher entre poucas opções, com critério objetivo.
E o que fica no modelo grande: tarefa com regra de prioridade, nuance e data certa. Resumo de decisão, ata, qualquer coisa em que o erro pequeno vira decisão errada.
Não é só comigo
A LangChain publicou em 1º de outubro de 2026 um roteador de modelos no agente de código dela. Segundo o post, o roteador cortou 64% do custo mediano por tarefa. E o desenho tem o mesmo princípio que aprendi na prática: o roteador escolhe o modelo uma vez, no início da conversa, e não é chamado de novo no meio. A fonte está no fim do texto.
Como decidir sem se enganar
Três regras que uso agora.
Meça com a mesma entrada. Rode os dois modelos no mesmo caso e compare contra a especificação da tarefa, não contra a impressão de que “ficou bom”. Um dos meus testes ficou inconclusivo porque o modelo testado leu a decisão do dia e contaminou o resultado. Para repetir, uso uma pauta antiga, já decidida.
Meça o consumo total, não o preço do token. Some o que o modelo lê e escreve de verdade, em todos os passos. O log da ferramenta, no meu caso, não trazia custo. Tive que somar o uso registrado nas conversas.
Teste em produção tem data para acabar. Se o experimento depende de alguém lembrar de reverter, ele não acaba.
O que você pode fazer na sua empresa
Se você usa IA em alguma rotina, escolha uma tarefa só. Rode o modelo atual e um mais barato com a mesma entrada, escreva antes o que conta como certo e compare qualidade e consumo total. Comece pelas rotinas que rodam sem ninguém esperando e pelos lotes. Deixe o resumo que alimenta decisão por último.
Se quiser ajuda para medir isso no seu caso, veja como eu trabalho em /contratar/.
Fontes: LangChain, “How to build a model router in the harness”, 1º/10/2026: https://www.langchain.com/blog/how-to-build-a-model-router-in-the-harness
Fernando Sugiyama é empresário desde 2010 (Leox e Hutz) e desenvolve soluções com IA em produção para empresas: agentes de atendimento, automação com aprovação humana e software sob medida. Tudo o que escreve aqui roda primeiro nas próprias empresas.
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